 fosse do sangue do dragão, pensou, melancólica,
esta poderia ser a minha casa. Era khaleesi, tinha um homem
forte e um cavalo rápido, aias para servi-la, guerreiros para
mantê-la a salvo, um lugar de honra no dosh khaleen à sua
espera quando envelhecesse,,. e no seu ventre crescia o filho
que um dia montaria o mundo. Isso seria suficiente para
qualquer mulher..., mas não para o dragão. Com Viserys
morto, Daenerys era a última, a última mesmo. Pertencia à
linhagem de reis e conquistadores, e o mesmo acontecia ao
filho que trazia na barriga. Não podia esquecê-lo.
O Mercado Ocidental era uma grande praça de terra batida
rodeada por coelheiras de tijolo de barro cozido, recintos para
animais, salas caiadas para se refrescar. Outeiros elevavam-se
do chão como se fossem dorsos de grandes animais
subterrâneos que rompiam a superfície, com bocejantes bocas
negras que levavam a frios e cavernosos armazéns
subterrâneos. O interior da praça era um labirinto de barracas
e passagens retorcidas, ensombradas por toldos de hera
entretecida.
Uma centena de mercadores e comerciantes descarregavam
suas mercadorias e instalavam-se em barracas depois que
chegaram, mas, mesmo assim, o grande mercado parecia
silencioso e deserto quando comparado com os bazares
apinhados que Dany recordava dos tempos passados em
Pentos e nas outras Cidades Livres. As caravanas dirigiam-se
a Vaes Dothrak, vindas do leste e do oeste, não tanto para
vender aos dothrakis como para comerciar umas com as
outras, explicou Sor Jorah. Os cavaleiros deixavam-nas ir e
vir sem ser incomodadas, desde que mantivessem a paz da
cidade sagrada, não profanassem a Mãe das Montanhas ou o
Ventre do Mundo e honrassem as feiticeiras do dosh khaleen
com os presentes tradicionais de sal, prata e sementes. Os
dothrakis não compreendiam verdadeiramente este negócio
de compras e vendas.
Dany também gostava da estranheza do Mercado Oriental,
com todas as invulgares visões, sons e cheiros que lá havia.
Passava com frequência suas manhãs ali, mordiscando ovos
de árvore, torta de gafanhotos e tiras de massa verde,
escutando as agudas vozes ululantes dos encantores,
embasbacando-se perante manticoras em jaulas de prata,
imensos elefantes cinzentos e os cavalos listrados de preto e
branco de Jogos Nhai. Também gostava de observar as
pessoas: os escuros e solenes Asshafi e os altos e claros
Qartheens, os homens de olhos brilhantes de Yi Ti com seus
chapéus de cauda de macaco, as donzelas guerreiras de
Bayasabhad, Shamyriana e Kayakayanaya com anéis de
ferro nos mamilos e rubis nas bochechas, e até mesmo os
severos e assustadores Homens das Sombras, que cobriam os
braços e as pernas com tatuagens e escondiam o rosto atrás de
máscaras. Para Dany, o Mercado Oriental era um lugar de
maravilha e magia.
Mas o Mercado Ocidental cheirava a casa.
Enquanto Irri e Jhiqui a ajudavam a sair da liteira, inspirou
e reconheceu os cheiros vivos do alho e da pimenta,
fragrâncias que lhe lembravam dias há muito passados nas
vielas de Tyrosh e Myr e lhe trouxeram um leve sorriso aos
lábios. Por baixo daqueles odores sentiu os pesados perfumes
doces de Lys. Viu escravos transportando braçadas da
intrincada renda de Myr e boas lãs numa dúzia de cores ricas.
Guardas de caravana vagueavam pelas passagens com
capacetes de cobre e túnicas até os joelhos de algodão amarelo
acolchoado, com bainhas de espadas vazias pendendo de
cintos de couro trançado. Atrás de uma barraca, um armeiro
exibia placas peitorais de aço, trabalhadas com ouro e prata
em padrões intrincados, e elmos batidos até tomar a forma de
animais extravagantes. Ao seu lado estava uma jovem bonita
vendendo ourivesaria de Lannisporto, anéis, broches, colares
e medalhões magnificamente trabalhados, bons para fazer
cintos. Um enorme eunuco guardava-lhe a barraca, mudo e
calvo, vestido com veludos manchados de suor e fechando a
cara a todos que se aproximassem. Em frente, um gordo
comerciante de tecidos de Yi Ti regateava com um pentoshi o
preço de um corante verde qualquer, fazendo oscilar de um
lado para o outro a cauda de macaco do chapéu quando
abanava a cabeça.
- Quando era menina adorava brincar no bazar - disse Dany a
Sor Jorah enquanto vagueavam pela passagem coberta entre
as barracas. - Era um lugar tão vivo, com todo mundo
gritando e rindo, tantas coisas maravilhosas para admirar...
embora raramente tivéssemos dinheiro suficiente para
comprar alguma coisa... Bem, exceto uma salsicha de vez em
quando, ou dedos-de-mel... Há dedos-de-mel nos Sete Reinos,
como os que fazem em Tyrosh?
- São bolos? Não sei dizer, princesa - o cavaleiro fez uma
reverência. - Se me liberar por algum tempo, irei em busca do
capitão para ver se tem letras para nós.
- Muito bem. Ajudarei a encontrá-lo.
- Não há necessidade de se incomodar. - Sor Jorah afastou o
olhar com impaciência. - Desfrute do mercado. Volto quando
concluir os meus assuntos.
Curioso, pensou Dany enquanto o observava afastar-se a
passos largos por entre a multidão. Não compreendia por que
não de